de Orlando da Costa
Uma Experiência de Vida<br> e Resistência
No ensaio Geração de 90 – Romance e Sociedade no Portugal Contemporâneo, Miguel Real inscreve um Manifesto por uma Literatura do Não. O autor pretende nesse texto enunciar alguns propósitos sobre o que a literatura portuguesa não deve ser. No ponto 4. este Manifesto rebela-se contra uma literatura que não possua ideias a alimentá-la aprofundando este sentido recorrendo a Saramago: escrevo romances porque não sei escrever ensaios. Miguel Real prossegue na senda de Saramago, exemplificando: cada romance seu possui um núcleo ideológico forte que é transmitido ao leitor».
Num tempo em que os poderes instalados tentam submeter a opinião pública e publicada aos interesses do grande capital e do imperialismo; expurgar do debate político o fundo ideológico (neoliberal) que lhe dá suporte, cujo, na actual fase, recorre às teses das elites económicas europeias e estado-unidenses que se sustentam num claríssimo ataque, de desforra, face aos mais elementares direitos conquistados pelos trabalhadores e pelas classes médias após a Segunda Guerra, fazendo o mal e a caramunha como se esta factualidade não passasse de meras acusações, sem substância, por parte dos suspeitos do costume. Portanto, interessante é reconhecer que um dos nossos mais importantes teóricos da Literatura não enjeita que, pelo menos na área do romance (e a Literatura será sempre espelho poliédrico de um certo tempo, social e histórico), este deva possuir um núcleo ideológico forte.
Sabemos que regimes afins do de Passos/Portas se regem pelo acrónimo da senhora Thatcher: There Is No Alternative (não há alternativa). Frase assassina como sabemos; visão reformulada das teses ultramontanas do senhor Fukuyama sobre o fim da História e, por arrasto, da luta de classes. O capitalismo no seu máximo esplendor, estágio supremo, desígnio natural e último da humanidade. Daí à tentativa de imposição do pensamento único foi um passo(s). Mas aconteceu o flop de 2008, anunciado e previsível (o velho Marx e a sua ponderável razão dialéctica), e este mundo efémero, mentiroso e virtual tombou como castelos de areia. Os espoliados, sangrados até à fronteira do insuportável, reagiram. Os bancos e os banqueiros, os donos disto tudo mostraram a sua verdadeira face e a sinistra natureza do não há alternativa. E eis-nos regressados, nesta ressaca imposta pelo mais inumano e bárbaro dos sistemas, aos rumos que nunca deveríamos ter perdido: a necessidade de nos apetrecharmos política, ideológica e culturalmente para enfrentarmos os grandes combates desta luta sem tréguas e desigual.
Resgatemos a memória, portanto, a partir dos livros corajosos, livros que nos falam da prática da acção, no dizer de Alexandre Pinheiro Torres. Acção que, segundo Hegel, traduz a essência mais íntima da nossa condição, particularidade que nos distingue de outros animais.
Aproveitemos a edição fac-similada de Podem Chamar-me Eurídice... de Orlando da Costa, um dos grandes romances portugueses de sempre, em boa hora dado à estampa – cumprem-se 50 anos sobre a sua 1ª. edição – pelo jornal Público na colecção Livros Proibidos1, para regressarmos à literatura que assume o combate das ideias, que as expõe clara, corajosamente; que representa um dos momentos mais altos, simbólicos e expressivos da resistência, e denúncia do fascismo, através da ficção. E o faz com um raro apuro estético, modelar no tratamento da língua e sua usança, com sensibilidade e sentido do humano, que invade, de forma culta e lúcida, o território vasto dos signos mitológicos para nos contar uma história de amor e recusa, de morte e transfiguração, de remorso e luta pela Liberdade, de abnegação e coragem. A denúncia corrosiva de um mundo de papelão, paraíso triste à beira mar plantado, império a esboroar-se em retórica pífia e beata, ao qual Orlando da Costa exibe o outro lado do espelho: o lodo, o sórdido, o abismo infernal e agreste de um regime feudal, suspenso pelos ferretes da ignomínia, dos cárceres, das sevícias, da fome e da ignorância – o reino do medo.
Um romance que nos fala de um tempo de inquietação, esperança e luta, no mundo académico e nos campos do Alentejo; de corpos desnudados presos apenas à sua força de acreditar em outros mundos possíveis, à argamassa ideológica (esse território elementar, esteio de todas as revoluções) de quem sabe que um dia expulsarão do Inferno o Cão-Tinhoso ou o Porco-Sujo: a Utopia substituirá o Reino das Trevas.2
O fascismo, e seus lacaios, não podia ficar indiferente ao torrencial subversivo de um romance onde, segundo Maria Alzira Seixo, o peso da referência circundante tolhe a vida mas vem aureolá-la de ideal, e o alcance da liberdade só o estorva a contingência do tempo atmosférico e da intromissão da PIDE.
Para a proibição deste romance bastava aos censores a leitura da dedicatória – cujo nome não é referido pelo autor, por motivos óbvios, mas se sabe ter sido a José Dias Coelho, assassinado pela PIDE a 19 de Dezembro de 1961: No dia do enterro de um amigo meu, a sua mãe pediu-me que escrevesse um poema em sua memória. Não fui capaz, até hoje. Das páginas deste livro tiro as palavras que poderiam ser, em vida, o seu signo, e na morte, o seu epitáfio: «... não eram ferozes nem ingénuas as suas convicções, eram apenas terrivelmente firmes e generosas». Eis o cerne, o magma ardente deste exemplar romance – tão exacto, tão depurado, tão ao rés do osso da fala essencial que, na sua declinativa ressonância estética, nos lembra a espaços o José Cardoso Pires de O Anjo Ancorado. As convicções políticas dos personagens de Podem Chamar-me Eurídice..., a começar por Cândida (nome carregado de simbologia), essa Eurídice desta aguda, intensa narrativa de um peculiar tempo português (os anos 1960), que não se quer sugada pelo Inferno, e os Orfeus que arriscam a vida ao desafiar, ousar olhar de frente a besta fascista: por amor, pela liberdade, pelo direito à Utopia.
Romance que se posiciona contra o paradigma judaico-cristão da obediência segundo as consignas dos Mandamentos – muitos deles violados grosseiramente pelos seus próprios defensores. Numa sociedade em declínio de valores civilizacionais, humanos e políticos, quando um deles governa absolutamente, o Outro está ausente, diz-nos Hannah Arendt reflectindo sobre os mecanismos da violência. Confrontando o poder fascista, Cândida/Eurídice, Cesário e Vítor/Orfeu, personagens centrais de Podem Chamar-me Eurídice..., agem para que esta sujeição se não estabeleça; são sujeitos activos agindo politicamente sobre o tempo histórico que lhes coube viver – negam-se à ausência.
O censor deste livro, um obscuro major José de Sousa Chaves, no despacho que exarou proibindo a sua circulação e venda, da 1.ª edição, escreveu ser esta narrativa a descrição de experiências vividas em ambiente subversivo e com alguma imoralidade, com uma índole acentuadamente revolucionária e o despudor que o caracterizam.
De que mais precisas, caro leitor, para te pores, nestes dias que nos restam de um atípico Verão, à descoberta, ou redescoberta, deste singular romance? A este repto não te deixo, para já, alternativa.
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1 A partir de 1.ªs edições do espólio particular de Pacheco Pereira
2 Alexandre P. Torres, Prefácio à 3.ª edição de Podem Chamar-me Eurídice..., Lisboa 1985 – Ed. Ulmeiro